A primeira encíclica de Bento XVI com a data de 25 de Dezembro será publicada nessa quarta-feira, 25 de Janeiro, anunciou o porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro Valls. Hoje, 25 de janeiro, o papa Bento 16 apresenta ao mundo a sua nova Encíclica intitulada “Deus Caritas Est”, - Deus é Amor. Documento máximo elaborado pela Papa, a Carta Encíclica, ou só Encíclica (Epistolae Encyclicae - Litterae Encyclicae), é um documento pontifício dirigido aos Bispos todo o mundo e, por meio deles, a todos os fiéis que formam a comunidade católica. A encíclica é usada pelo Papa para exercer o seu magistério ordinário. Contem reflexões e diretrizes sobre assuntos relacionados à doutrina do catolicismo. Trata de matéria doutrinária em variados campos: fé, costumes, culto, doutrina social, etc. A matéria nela contida não é formalmente objeto de fé. Mas, a ela se deve o religioso obséquio do assentimento exterior e interior. O termo "epistola encyclica" parece que foi introduzido pelo Papa Bento XIV (1740-1758). A primeira Encíclica de Bento 16 terá como tema principal as diferentes formas de amor.
Em declarações à imprensa italiana, Navarro Valls explicou que a decisão de assinar nessa data a encíclica se deve aos numerosos documentos que Bento XVI tornou públicos nas últimas semanas, entre eles à mensagem para a Jornada Mundial da Paz, o discurso à Cúria Romana a propósito do Natal, e os que estão a preparar para ler no Natal e Ano Novo.
A encíclica foi escrita no Verão passado, durante as férias que o Papa passou no Vale de Aosta. A decisão de adiar a saída da encíclica para Janeiro foi adaptada pessoalmente pelo Papa.
A Bíblia Sagrada, no Capítulo 13, da Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios, descreve-nos que “Mesmo que eu fale em línguas, a dos homens e a dos anjos, se me falta o amor, sou um metal que ressoa, um símbolo retumbante. Mesmo que tenha o dom da profecia,o saber de todos os mistérios e de todo o conhecimento, mesmo que tenha a fé mais total, a que transporta montanhas, se me falta o amor, nada sou. Mesmo que distribua todos os meus bens aos famintos, mesmo que entregue o meu corpo às chamas, se me falta o amor, nada lucro com isso. O amor tem paciência, o amor é serviçal, não é ciumento, não se pavoneia, não se incha de orgulho, nada faz de inconveniente, não procura o próprio interesse, não se irrita, não guarda rancor, não se regozija com a injustiça, mas encontra a sua alegria na verdade. Ele tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca desaparece. As profecias? Serão abolidas. As línguas? Cessarão. O conhecimento? Será abolido. Pois o nosso conhecimento é limitado e limitada a nossa profecia. Mas quando vier a perfeição, o que é limitado será abolido. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei homem, pus fim ao que era próprio da criança. Agora, vemos em espelho e de modo confuso; mas então, será face a face. Agora, o meu conhecimento é limitado; então, conhecerei como sou conhecido. Agora, portanto, permanecem estas três coisas, a fé, a esperança e o amor, mas o amor é o maior”.
O papa Bento 16 disse que sua primeira encíclica trata da caridade e da relação entre o amor espiritual e o amor carnal. Bento disse esperar que o documento mostre aos cristãos a relação adequada entre amor carnal e amor espiritual. O sumo pontífice afirmou a peregrinos na audiência geral realizada toda semana que a encíclica, intitulada "Deus Caritas Est" (Deus é Amor), será publicada nessa quarta-feira, para coincidir com o encerramento de um período de um ano durante o qual a Igreja Católica reza pela unidade entre os cristãos.
"Nesta encíclica, eu quero mostrar o conceito de amor em suas diversas dimensões", afirmou o pontífice. "Na terminologia usada hoje, o amor seguido aparece muito distante do que os cristãos pensam", acrescentou.
"O amor de Deus e o nosso amor são os fundamentos da unidade cristã e uma condição para a paz no mundo", disse o papa.
As pessoas presentes na audiência realizada no Vaticano começaram a aplaudir quando Bento 16, eleito em abril passado, fez o comunicado, afirmando-lhes: "Minha primeira encíclica será finalmente publicada."
Os principais temas da encíclica, o tipo de texto mais importante publicado pelos papas, são o amor e a caridade.
Bento 16 afirmou esperar que sua primeira encíclica "ilumine e ajude nossa vida cristã".
Segundo meios de comunicação italianos, o papa adverte no texto que o amor carnal pode se degradar ao mero sexo se não contar com o elemento balanceador do amor espiritual ou divino fundado na fé cristã.
Sem o elemento do amor espiritual no relacionamento de um casal, o marido e a mulher correm o risco de serem reduzidos a uma mercadoria, diz o papa na encíclica.
Ao explicar seu ponto de vista, Bento 16 não cita apenas textos bíblicos, seus antecessores e ensinamentos da Igreja, mas também filósofos como o pensador René Descartes, do século 17.
Acredita-se que o próprio papa tenha escrito toda a primeira parte da encíclica ele mesmo. No entanto, a segunda parte -- que trata do tema da caridade -- já estava sendo composta nos anos finais do papado de João Paulo 2o., que morreu em abril.
A encíclica deveria ter sido publicada no dia 8 de dezembro. Mas, segundo membros do Vaticano, houve um atraso devido a vários acréscimos, mudanças e supressões no texto depois de comentários feitos por departamentos da Santa Sé e cardeais que leram sua versão inicial.
Com sua primeira encíclica, que se chamará “Deus Caritas Est” (Deus é Amor, em latim, citação de versículo contido na Primeira Epístola de São João, Bento 16 pretende mostrar o conceito de amor em suas diversas dimensões, disse ele. Na terminologia usada atualmente, o amor sempre surge distante do que pensam os cristãos. Eu quero mostrar que se trata de um só movimento com diferentes dimensões, afirmou o papa.
Na Encíclica com cerca de 50 páginas, o sumo pontífice tratará da relação entre “Eros” e “ágape”, formas distintas de amor.
De acordo com o teólogo João Batista Libânio, que frisa que as concepções são suas, não garantindo que sejam as mesmas de Ratzinger, o amor “Eros” está ligado à carência. “E o amor falta”, que está relacionando aos sentidos. Relaciona-se ao amor sexual na medida em que ele é a expressão da falta que um homem sente de uma mulher e vice-versa. “É um amor egocêntrico, menos gratuito”, diz o teólogo jesuíta, professor do Instituto Santo Inácio, em Belo Horizonte.
Já o amor “ágape” é o amor do perdão, desinteressado, espiritual. Libânio conta que o conceito refere-se ao amor de Cristo pela humanidade, o amor de quem morreu pelos homens e não exigiu nada em t roca.
“Cáritas”, explica Libânio, é a palavra latina para “ágape”. Daí seu surgimento no nome da encíclica.
A primeira encíclica de um papa é um documento muito aguardado pela comunidade católica, pois é vista, tradicionalmente, como definidora do tom que terá seu pontificado. Nela está o “programa de governo” de um sumo pontífice. Foi assim com Paulo 6º (1963-78) e com João Paulo 2º (1978-2005), diz o Padre Libânio, explicando que a questão central para aquele foi o diálogo, e, para o papa polonês foi a figura de Cristo como redentor.
A “Deus Caritas Est” será a 294ª encíclica da história da Igreja.
Que o Amor esteja conosco! Boa leitura.
* GILMAR CARDOSO, advogado, poeta, membro do Centro do Letras do Paraná e da Academia Mourãoense de Letras.
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