No dia 04 de outubro comemora-se o “Dia do Poeta”. A escolha dessa data deve-se ao fato de que, esse é o dia do nascimento de São Francisco de Assis, considerado o “Santo dos Poetas”, pelo seu amor à natureza e aos animais.
O escritor paranaense Milton Vicente Ferreira, da Academia de Letras José de Alencar, prefaciante do meu primeiro livro, “Confissões de Ninguém”, em 1989, afirmou que “a estrada da poesia é infinita, sublime, musical, e, se palmilhada com reflexão, estudo e busca, pode-se chegar a mais íntima realização”. Compartilho com o mestre desse pensamento.
Vivemos num mundo conturbado, mas é inegável que nele a civilização atingiu tal esplendor que chega a ser privilégio o viver nos dias que correm. A própria poesia adaptou-se às exigências da sociedade. A arte é uma espécie de sismógrafo das convulsões humanas e não poderia fugir a esta dupla contingência da vida de hoje: um novo hedonismo e o terror atômico.
Hoje o homem anda muito cansado. Não soube divisar que a única coisa que não cansa é o amor e a poesia. O progresso irreal e cruel acabou matando um pouco a poesia, provocando desânimos e incertezas, mas para o bem da humanidade, o poeta se renova, oxigenando a vida.
Ao voltarmo-nos um pouco para o passado, veremos que ocorreu uma verdadeira revolução no movimento artístico nacional, representada pela Semana da Arte Moderna de 1922. Como querendo comemorar o centenário da independência, os artistas e intelectuais brasileiros, exatamente às margens do Ipiranga, lançaram um outro grito de independência, cuja repercussão na vida nacional só hoje é devidamente apreciada.
Naquele tempo, Olavo Bilac, o chamado “príncipe dos poetas”, por aclamação unânime, assim cantava: “quando uma virgem morre, uma estrela aparece nova, no velho engaste azul do firmamento”, foi quando um grupo de vanguarda de São Paulo bradou: “chega de virgens mortas!” E lançou o desafio, há muito lançado em Paris, Roma e Berlim, logo acolhido para depois ser renegado, na Rússia pós-1918. Na definição de Manuel Bandeira, a síntese do movimento: “abaixo os puristas. Não quero mais saber do lirismo que não é libertação!”.
A arte moderna surgiu em decorrência de um desconforto tanto do ponto de vista técnico, como social; regida principalmente pela palavra “apesar de tudo”: apesar de tudo, isto é música, isto é poesia; apesar da ausência de rimas, apesar das palavras incompreensíveis, apesar da miséria ou da guerra. – Alguma coisa nova tinha que ser feita – não apenas por estratégia de sobrevivência, foram abolidos os padrões estéticos num mundo hostil.
Tratava-se de experimentar os limites para além dos quais a própria poesia-arte deixaria de existir. Tratava-se de ver até que ponto, submetida a todos os choques, a todas as violências de gosto, a todas as rupturas frente à convenção, a essência da arte, aquilo que há de mais artístico numa obra de arte, mostra-se capaz de resistir e, assim, se fortalecer.
São bastante claros, entretanto, os riscos de que esse mesmo esforço de resistência de ruptura e de afirmação se transforme num novo conformismo; uma convenção substitui outra, e assim como há cinqüenta anos um leitor poderia recuar escandalizado diante de uma poesia sem rima e sem métrica, hoje seria classificado de louco ou qualquer outra definição similar quem resolvesse escrever uma epopéia em decassílabos.
Na atualidade há uma nova linguagem poética paralela à renovação de todas as linguagens sociais – a linguagem coloquial, a dos vestuários, a publicitária e jornalística, entretida com o mundo à sua volta. O poeta inventa os estilos que vão dar conta das novas sensibilidades, próprias da vida moderna. A variedade dos assuntos é enorme e a única medida que se pode ter em comum é a diversidade.
Se entendida a poesia como exercício preciso e exato no interior da linguagem, não há mais lugar para os derramamentos dos poemas extensos. Hoje é extremamente visível a predominância do poema curto, da poesia da brevidade, rápida, concisa, fragmentada; quase que uma moda impositiva, num período em que a pressa é uma condição de vida.
Para quem pretende escapar do monopólio do livro escondido na estante, o jogo do som e letras se torna uma prioridade mais importante que o sentido do texto. A espontaneidade e a inspiração são bloqueadas para darem lugar à materialidade e à visualidade do poema.
Se há um estilo poético-contemporâneo, pós-moderno, é o da ruptura, o que corresponde à ideologia do individuo diminuto perante o gigantismo social. O distanciamento com as linguagens anteriores é acentuado, e infelizmente, às vezes essa quase ilegibilidade da literatura, tem reduzido sua amplitude social, pois transformou o poema em objeto, não mais um instrumento de expressão lírica.
E como aconselhar alguém que se quer iniciar nos ministérios e na aventura da arte moderna? – Conselho não há! É impossível empacotar a névoa ou perenizar um momento fugaz de felicidade. Critério, só conheço um – o de guiar-se alguém pelo seu gosto e seu instinto. A arte não cabe dentro de cânones, como se pretendeu outrora, nem em regras ou leis. Arte é emoção e emoção é imponderável ou indefinível. Se fosse possível fazê-la caber numa frase, diria: arte é encantamento!
Não há dificuldade em ser poeta. É só escrever com delicadeza, utilizar imagens instituídas a partir de quase nada, e transportar o leitor por um lirismo onde pouco importa ser moderno ou não. Se um poema não lhe transmitir o seu sortilégio, fuja dele. Mas, se, no entanto, você sentir diante daquelas linhas bem traçadas, um prazer inefável, um deleite para os olhos e espírito, se aquele pedaço de papel permanecer vivo e vibrante em sua retina, mesmo quando você virar a página, não hesite. Trate logo de relê-lo. O prazer provocado pela leitura de um poema é indefinível e devemos estar sempre abertos a novas associações que possa provocar em nós. Isso não tem preço. Você passou a viver no mundo encantado da arte de todos os tempos.
Como testemunho, afirmo que somos poetas do nosso tempo. Não o superamos. Tampouco precisamos disso. Ser poeta não é obedecer alguma fórmula que torne os escritos reconhecíveis como poesia. De resto, não quero produzir discurso, eu quero fazer poemas!
* GILMAR CARDOSO, advogado, poeta, membro do Centro de Letras do Paraná e titular da cadeira nº 01 da Academia Mourãoense de Letras.
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