* GILMAR CARDOSO
Em hebraico, a palavra "amém" está ligada à mesma raiz da palavra "crer". Esta raiz exprime a solidez, a confiabilidade, a fidelidade. Sua tradução mais comum na língua portuguesa é: assim seja!
A Eucaristia é um dos sete sacramentos da Igreja Católica e foi instituído na Última Ceia, quando Jesus disse :‘Este é o meu corpo...isto é o meu sangue... fazei isto em memória de mim’. Porque a Eucaristia foi celebrada pela 1ª vez na Quinta-Feira Santa, Corpus Christi se celebra sempre numa quinta-feira após o domingo depois de Pentecostes. Jesus quis deixar para a Igreja um sacramento que perpetuasse o sacrifício de sua morte na cruz. Por isso, antes de começar sua paixão, reunido com seus apóstolos na última ceia, instituiu o sacramento da Eucaristia, convertendo pão e vinho em seu próprio corpo vivo, e o deu de comer, fez partícipes de seu sacerdócio aos apóstolos e mandou-lhes que fizessem o mesmo em sua memória.
A Solenidade do Corpo e Sangue do Senhor Jesus Cristo (Corpus Christi) é uma das Festas mais importantes do calendário litúrgico. Isso se dá pelo fato de que, sendo a Eucaristia um dos sete sacramentos da Igreja, ela é o próprio Deus ali presente com todo o seu esplendor, envolvido em mistério, mas real. Portanto, digno de toda a nossa adoração, todo o nosso louvor e ação de graças.
Foi o Senhor quem disse aos seus apóstolos: “Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6, 54). Assim confessa a Igreja esta mesma verdade de fé com toda alegria quando diz: “A Santíssima Eucaristia contém todo o bem espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa” (CIC, 1324).
Todos os cristãos católicos têm a Sagrada Eucaristia como o “Mistério da Fé”. O grande milagre da atualização do sacrifício do Senhor acontece diariamente em cada Santa Missa, exatamente na hora da consagração das espécies do pão e do vinho, transformando-se no verdadeiro Corpo e Sangue do Senhor (transubstanciação), realizada pela imposição das mãos do sacerdote. Embora continue com a aparência do pão e do vinho, a Fé da Igreja - sustentada primeiramente pelas Sagradas Escrituras e depois pela Sagrada Tradição - nos ensina que já não o são mais. Podemos contemplar o verdadeiro Corpo e verdadeiro Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Este é o “Mistério da na nossa Fé e cremos com todas as forças da alma”!
Desta verdade nasceu a necessidade de conservar as hóstias consagradas nos tabernáculos (sacrários), também chamada de “Sagrada Reserva Eucarística”, para que se pudesse levar Jesus Eucarístico para os doentes (viático) e pudesse dispor para a adoração. É bom lembrar que o Senhor permanece presente enquanto as aparências de pão e do vinho se conservarem intactas, mesmo que no menor fragmento e na menor quantidade.
No entanto, houve um tempo (transição do séc. XII para o séc. XIII) em que heresias e disseminações de doutrinas contrárias a esta verdade se pôs dúvida a Jesus Eucarístico. Foram tempos de contradições em torno da Eucaristia. Além do descuido com os tabernáculos, havia dúvidas sobre a presença real de Jesus na Eucaristia, sobretudo fora da celebração, ou seja, nas “espécies eucarísticas” guardadas nos sacrários.
Dentro desse ambiente hostil à Eucaristia, uma religiosa agostiniana, a Beata Juliana de Cornillon (1193-1258), na diocese de Liége, na Bélgica, teria tido uma visão de Jesus em que Ele pedia uma festa pública ao seu mistério eucarístico. Santa Juliana levou o caso ao Bispo local que, em 1258, instituiu a festa do Corpo do Senhor na sua Diocese. Passados alguns anos outros bispos fizeram o mesmo, até que se tornou festa nacional na Bélgica. Em 1264, o Papa Urbano IV (Bula Transiturus), estendeu a festa para toda a Igreja com o nome de Corpus Christi e adornou a celebração com belíssimos textos de conteúdo teológico de São Tomás de Aquino.
É da autoria de Santo Tomás o canto “Tão sublime Sacramento, adoremos neste altar”. Praticamente todos os católicos conhecem este tão belo hino de honra e adoração ao Senhor, cantado sempre que acontece adoração pública breve e no momento da benção do Santíssimo Sacramento.
O Concílio Vaticano II dá uma denominação mais completa à solenidade quando chama não apenas do Corpo, mas também do Sangue de Cristo, o mistério eucarístico por excelência. Já o código de Direito Canônico (Cânon 944) prescreve o “testemunho público de veneração para com a Santíssima Eucaristia” e “onde for possível, haja procissão pelas vias públicas”. Neste sentido, na solene Missa do Corpus Christi, o padre consagra duas hóstias grandes, uma para consumir e a outra para ser colocado no “ostensório” para a procissão e benção do Santíssimo Sacramento.
A Igreja nos diz que “o mundo precisa muito do culto eucarístico. Jesus nos espera neste sacramento do amor”. Portanto, amados irmãos e irmãs, não podemos deixar de acorrer à presença de Jesus eucarístico. Diante de um mundo que cultua tantas imagens que afetam os sentidos e induzem à pornografia, à violência e ao consumo desenfreado, precisamos convidar a todos para olharem Jesus, pois somente ele é a nossa verdadeira felicidade e somente nele há salvação. Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Não nos retiraremos, pois a quem iríamos, Senhor?
Mas a Eucaristia também exige nosso compromisso de fraternidade. A Eucaristia não é apenas expressão de comunhão na vida da Igreja; ela também é projeto de solidariedade. O cristão que participa da Eucaristia aprende dela a fazer-se promotor de comunhão, de paz, de solidariedade.
Que a comunhão recebida seja para todos ocasião preciosa para uma renovada consciência do tesouro incomparável que Cristo confiou à sua Igreja. Recebendo o Corpo e o Sangue do Senhor, vivendo seus ensinamentos, aprofundemo-nos nesse sagrado mistério e possamos dizer como o apóstolo Paulo "Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim."
Queremos ficar com a Verdade que é o Senhor, que nos disse: “Minha carne é verdadeira comida e meu Sangue, verdadeira bebida”. “Felizes aqueles que crêem sem ter visto” (cf. Jo 21, 29). Com todo o nosso ser digamos juntos: “Graças e louvores se dêem a todo o momento, ao Santíssimo, Diviníssimo Sacramento”, amém!
* GILMAR CARDOSO, advogado, poeta, membro do Centro de Letras do Paraná e da Academia Mourãoense de Letras |